Será mesmo a vida cheia de minúsculos buracos?
Dedicado ao meu querido amigo dramaturgo - Ruy Jobim Neto
Vai dar Beleza.
Muita inocência e
Gosto de Tulipas.
Vai dar clareza
De que a vida é mero acaso
Uma informalidade sombria
e mesmo assim de maior grandeza.
Vai ter certeza
De que a fé
nem sempre ergue montanhas
e nem altos prédios.
Mas que a essência -
Sereníssima suave -
É a alma do que contrói.
Um aroma desperta
emoções, num ambiente.
Uma sutileza e elegância
tão rara nos dias de hoje -
a da beleza Humana.
Qual criatura com nudez incomparável
Pode tecer caminhos tão arquitetados?
A vida não é uma obra concreta.
Inspira-se somente no abstrato
do qual dão o nome de amor.
* Por Morelli ®
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
A imagem de uma mulher
Autoria: Vanessa Morelli
Sempre me senti mais mulher do que homem. A figura mais presente: minha mãe. Ela, sempre ela, me fazia ver a vida com olhos voltados para um livro de romance. Passei então a não buscar uma esposa, mas uma princesa, aquela companheira cujos mistérios da vida seriam descobertos com minha ilustre presença. Não que fosse uma atitude machista, de maneira alguma. Apenas sentia que ter alguém pra chamar de "minha mulher" não teria vínculo com a possessividade e nem com o vigor da suprema raça masculina, mas com a delícia de um conto, um belo conto de fadas lidos por minha mãe.
Passei meus anos todos em busca da realização desse sonho, procurando em todos os rostos a imagem do amor. Engraçado era que quanto mais procurava esse substantivo "mulher" mais me afastava do sentimento abstrato chamado "amor". Mesmo diante de tanta procura e nenhuma realização amorosa efetivada, meus sonhos faziam sentido, embora o sentido se afastava de mim.
Vinte anos, trinta anos, quarenta anos se passaram. Hoje, realizado, olho-me sempre em segredo em frente ao espelho. Percebi finalmente que o que mais procurava era a minha própria imagem com os traços de uma mulher. Satisfeito, quando chego do trabalho, exausto, vejo o meu grande amor, às noites. Veste uma linda peruca loira e tem gosto por batom laranja.
Sempre me senti mais mulher do que homem. A figura mais presente: minha mãe. Ela, sempre ela, me fazia ver a vida com olhos voltados para um livro de romance. Passei então a não buscar uma esposa, mas uma princesa, aquela companheira cujos mistérios da vida seriam descobertos com minha ilustre presença. Não que fosse uma atitude machista, de maneira alguma. Apenas sentia que ter alguém pra chamar de "minha mulher" não teria vínculo com a possessividade e nem com o vigor da suprema raça masculina, mas com a delícia de um conto, um belo conto de fadas lidos por minha mãe.
Passei meus anos todos em busca da realização desse sonho, procurando em todos os rostos a imagem do amor. Engraçado era que quanto mais procurava esse substantivo "mulher" mais me afastava do sentimento abstrato chamado "amor". Mesmo diante de tanta procura e nenhuma realização amorosa efetivada, meus sonhos faziam sentido, embora o sentido se afastava de mim.
Vinte anos, trinta anos, quarenta anos se passaram. Hoje, realizado, olho-me sempre em segredo em frente ao espelho. Percebi finalmente que o que mais procurava era a minha própria imagem com os traços de uma mulher. Satisfeito, quando chego do trabalho, exausto, vejo o meu grande amor, às noites. Veste uma linda peruca loira e tem gosto por batom laranja.
AMIGO?
Autoria: Vanessa Morelli
“Como vai você?” – pergunta curioso Rodrigo, preocupado com o sentimento do amigo.
“Bem, obrigado!”, diz Plínio aparentando falso estado de paz.
Rodrigo replica:
- Mas está tudo bem mesmo?
Insistentemente, Plínio responde:
- Bem sim, Rodrigo. Estou muito bem em ver meus amigos perguntarem sem sentido se os outros estão bem quando sei que o mundo não está nada bem.
- Por que me diz algo assim, caro amigo?
- Porque sei que as coisas nunca estarão bem. Quem tem uma casa quer duas, quem tem sucesso no amor vai querer o profissional e aquele que tiver tudo, então o que mais pode ter? Se o mundo é movido por desejo, querido Rodrigo, o que pode desejar aquele que tudo tem?
- Boa observação, Plínio, mas pense aqui comigo. Eu sou um homem satisfeito, tenho uma boa mulher, um ótimo trabalho, uma excelente condição de vida e uma saúde digníssima, o que hei de reclamar?
- Ora, ora, Rodrigo, a quem engana? Pensa ter seus sonhos realizados e por certo deve tê-los, entretanto o que o faz acordar dia após dia se obtém todos seus sonhos?
- Os prazeres da vida, meu amigo. Um deles é estar com você aqui neste bar, bebendo do vinho mais caro e podendo dar gorjetas infladas aqueles que a mim prestam serviço. Como posso reclamar, Plínio?
- De tudo isso, mas é claro! Aquele que tudo possui o que mais poderá possuir?
- De pronto respondo, amigo. Cabe a eu dar alegria aqueles que não tem a mesma sorte que eu. Pudera eu ignorar tal fato? Digo que sim. E se assim fosse, aí estaria toda minha infelicidade: a de não dar prazer e alegria àqueles que necessitam. E não de mim! Mas por meio do que posso dar a eles. Minha esposa, por exemplo, só me pede amor. Posso eu negar isso à ela? Não. Se o fizesse, aí sim cavaria minha sepultura. E o dinheiro que me sustenta, não mais me sustentaria vida e por certo, um caixão. As conquistas somente trazem felicidade, queridíssimo Plínio, nas mãos dos que sabem dividir.
- Creio que estou convencido dos seus talentos em cativar aqueles carentes de sorte ou de domínio. Se é realmente meu amigo e acredito firmemente que sim após extenso discurso elucidativo e argumento sustentado, coloco-me numa posição de subalterno e oprimido pelos causos da vida e pergunto: posso eu desfrutar do seu lar aconchegante, com sua esposa a passar frente aos meus olhos e eu contemplar e me abastecer da felicidade doada por um amigo que cá se encontra em minha frente?
- Ora, vamos voltar logo ao Tribunal que estamos atrasados.
“Como vai você?” – pergunta curioso Rodrigo, preocupado com o sentimento do amigo.
“Bem, obrigado!”, diz Plínio aparentando falso estado de paz.
Rodrigo replica:
- Mas está tudo bem mesmo?
Insistentemente, Plínio responde:
- Bem sim, Rodrigo. Estou muito bem em ver meus amigos perguntarem sem sentido se os outros estão bem quando sei que o mundo não está nada bem.
- Por que me diz algo assim, caro amigo?
- Porque sei que as coisas nunca estarão bem. Quem tem uma casa quer duas, quem tem sucesso no amor vai querer o profissional e aquele que tiver tudo, então o que mais pode ter? Se o mundo é movido por desejo, querido Rodrigo, o que pode desejar aquele que tudo tem?
- Boa observação, Plínio, mas pense aqui comigo. Eu sou um homem satisfeito, tenho uma boa mulher, um ótimo trabalho, uma excelente condição de vida e uma saúde digníssima, o que hei de reclamar?
- Ora, ora, Rodrigo, a quem engana? Pensa ter seus sonhos realizados e por certo deve tê-los, entretanto o que o faz acordar dia após dia se obtém todos seus sonhos?
- Os prazeres da vida, meu amigo. Um deles é estar com você aqui neste bar, bebendo do vinho mais caro e podendo dar gorjetas infladas aqueles que a mim prestam serviço. Como posso reclamar, Plínio?
- De tudo isso, mas é claro! Aquele que tudo possui o que mais poderá possuir?
- De pronto respondo, amigo. Cabe a eu dar alegria aqueles que não tem a mesma sorte que eu. Pudera eu ignorar tal fato? Digo que sim. E se assim fosse, aí estaria toda minha infelicidade: a de não dar prazer e alegria àqueles que necessitam. E não de mim! Mas por meio do que posso dar a eles. Minha esposa, por exemplo, só me pede amor. Posso eu negar isso à ela? Não. Se o fizesse, aí sim cavaria minha sepultura. E o dinheiro que me sustenta, não mais me sustentaria vida e por certo, um caixão. As conquistas somente trazem felicidade, queridíssimo Plínio, nas mãos dos que sabem dividir.
- Creio que estou convencido dos seus talentos em cativar aqueles carentes de sorte ou de domínio. Se é realmente meu amigo e acredito firmemente que sim após extenso discurso elucidativo e argumento sustentado, coloco-me numa posição de subalterno e oprimido pelos causos da vida e pergunto: posso eu desfrutar do seu lar aconchegante, com sua esposa a passar frente aos meus olhos e eu contemplar e me abastecer da felicidade doada por um amigo que cá se encontra em minha frente?
- Ora, vamos voltar logo ao Tribunal que estamos atrasados.
Especial Gregor Mencken
Amor primeiro
Quem vos amou tão triste e tão primeiro
Que o mal de amar o fez tão raro e triste
Triste porque partiu, porque partiste
Em ser primeiro e triste sou parceiro.
De um par tão triste que se fez primeiro
Névoa do alvorecer que não existe
Vejo que estou tão só, quanto me viste
E te amei sem querer - tão derradeiro.
Derradeiro (perdão) por ser primeiro
Relembrando outra vez que fui parceiro
Do que em nós transformou-se na memória:
Amor de armas em riste, e triste história
Entre a glória de ser o amor primeiro
Ter o demônio de ser o derradeiro.
Gregor Mencken e Pedro Geraldo Escosteguy.
Alva lua
A alva lua
brilha nos campos.
Espio sua luz,
e lembro em sonhos
daquela que surge calada.
Oh! bem-amada!
Reflete-se na grama,
e perfila-se imprecisa
Ao vento que assobia!
É hora, o mocho pia...
Assim como desce
a calma infinita
do pensamento
que a lua frisa.
Não lamentemos:
É a hora precisa.
Gregor Mencken.
Time to go
O som das estrelas e da lua
Brilhando em tua noite, por janelas
Com o impacto insano de tua
Versão de cores tão amarelas.
O pundonor da alvorada nua
Como a serena pele da amada,
Fere, de mansinho, todas trevas
E vem, já sem pássaros, calado!
A doce lembrança, que é só tua
Estaca. E pousará seus lábios
No orvalho, com tremores sábios...
Uma alma ferida, ao pé da estrada,
Coração pulsando pela vida
Time to go. Hora da partida.
Gregor Mencken.
Quem vos amou tão triste e tão primeiro
Que o mal de amar o fez tão raro e triste
Triste porque partiu, porque partiste
Em ser primeiro e triste sou parceiro.
De um par tão triste que se fez primeiro
Névoa do alvorecer que não existe
Vejo que estou tão só, quanto me viste
E te amei sem querer - tão derradeiro.
Derradeiro (perdão) por ser primeiro
Relembrando outra vez que fui parceiro
Do que em nós transformou-se na memória:
Amor de armas em riste, e triste história
Entre a glória de ser o amor primeiro
Ter o demônio de ser o derradeiro.
Gregor Mencken e Pedro Geraldo Escosteguy.
Alva lua
A alva lua
brilha nos campos.
Espio sua luz,
e lembro em sonhos
daquela que surge calada.
Oh! bem-amada!
Reflete-se na grama,
e perfila-se imprecisa
Ao vento que assobia!
É hora, o mocho pia...
Assim como desce
a calma infinita
do pensamento
que a lua frisa.
Não lamentemos:
É a hora precisa.
Gregor Mencken.
Time to go
O som das estrelas e da lua
Brilhando em tua noite, por janelas
Com o impacto insano de tua
Versão de cores tão amarelas.
O pundonor da alvorada nua
Como a serena pele da amada,
Fere, de mansinho, todas trevas
E vem, já sem pássaros, calado!
A doce lembrança, que é só tua
Estaca. E pousará seus lábios
No orvalho, com tremores sábios...
Uma alma ferida, ao pé da estrada,
Coração pulsando pela vida
Time to go. Hora da partida.
Gregor Mencken.
EMBRIAGADOS
Conto de Vanessa Morelli
Lúcia é poetisa. Gosta de lua e boemia. Tem um anel que lhe foi dado de geração pra geração e o guarda com muito carinho. Guarda porque não pode usar. É uma relíquia que vem de seus antepassados, em ouro e pedras preciosas, de valor emotivo, muito cara. Fragilizada por sua natureza sensível, precisa descobrir uma maneira de ganhar dinheiro suficiente para pagar suas dívidas que são muitas, caso contrário terá de vender esse tesouro que para ela não tem preço. Sua família jamais a perdoaria.
Sozinha, Lúcia faz o que pode. Não é extrovertida. Sua natureza é contida e exteriorizar emoções, para ela e para o mundo, é praticamente impossível. Lúcia quer ser mãe, quer ter uma filha, uma menina que possa dar continuidade à família Sousa.
Alcides é apaixonado por Lúcia, mas ela não está preparada para ele. Ela nunca está preparada. Esta mulher poetisa não está pronta ainda para um relacionamento amoroso e afetivo. Mas Alcides é teimoso e acredita que querer é poder. Todos os dias, leva um buquê para Lúcia que, como sempre, fica sem palavras.
Ela até gosta de Alcides, mas o acha um tanto soberbo, materialista, um molde da sociedade capitalista. Mesmo assim, sente uma certa afinidade, embora não saiba transformar em palavras o que de fato sente.
Fica comigo, vamos! Vou te fazer feliz.
Lúcia ouve as declarações de Alcides com atenção e tenta buscar uma explicação. Tem de responder, mas o que responder? Sim, fico? Não, somos incompatíveis?
Alcides teve dificuldades na infância. Seus pais haviam se separado enquanto ele era menino. Passou a maior parte da sua adolescência entre ir e vir, o que explica sua carência afetiva e uma vontade de se prender a algo concreto. Sabe que a família que irá escolher poderá fazê-lo feliz, um homem satisfeito. Sabe que a vida é feita de escolhas e nem sempre as pessoas são da maneira que se quer, às vezes é preciso tolerá-las.
Lúcia tem pressão baixa. Alcides tem pressão alta. E se dizem que os opostos se atraem, esse casal haveria de ter uma união perfeita. Lúcia gostava de humanas, de ler e escrever, principalmente poemas, já Alcides adorava números, era uma calculadora ambulante.
Lúcia ainda não respondeu. Tem de dar alguma resposta, qualquer uma, sim ou não. Mas tem medo. Lúcia tem medo. Medo da vida, medo de tudo. Tem medo de se arriscar. Ela sabe que Alcides é corajoso, ambicioso e amoral. Sente seu sangue correr de forma vibrante e irregular. Sabe que se ficar com ele é por pouco tempo. Ela é água, ele é óleo, ambos não se misturam. A sua transparência a incomoda, quer ser tão profunda quanto Alcides. Não sabe que Alcides quer ser água como ela.
Os dois falam muito. Ela, por defesa. Ele, por narcisismo. Alcides adora chamar atenção e sabe disso. Lúcia também gosta, também quer, mas desconhece.
E então... juntos ou não?
A paciência de Alcides não é muita, a de Lúcia também não. Alcides é sincero, embora sua sinceridade às vezes machuque. Lúcia também é sincera, até certo ponto.
Os dois se abraçam. Olham-se. Beijam-se com uma tensão violenta. Existe uma química fortíssima entre eles. Não se agüentam, é muito desejo. O sangue corre nas veias bombeando o coração e a mente embriagada de muita química hormonal. É vibrante, inquietante. Querem se livrar das roupas, mas não podem. Lúcia e Alcides estão em ambiente público.
Vamos para outro lugar?
Lúcia vacila. Devo ou não devo? Vai então.
Só conseguem pensar em saciar esta sede. A brasa queima violentamente. Os dois esqueceram a calma bem no momento em que aconteceu aquele beijo. Foi no beijo. Aquele beijo acumulou mais tensão da que estava presente. O desejo é delinqüente. Lúcia pensava: “é ele!”, “eu quero”, “eu desejo”, “eu amo”, “eu enlouqueço”.
Passam antes num posto, colocam gasolina, calibram os pneus e entram na loja de conveniência para comprar algumas coisinhas para acrescentar essa noite que desperta os animais mais tranqüilos da floresta. Chegam no motel com uma garrafa de vinho na mão. Não havia copo e esqueceram de comprar. Decidem beber no gargalo. Alcides fica altamente sob frágil situação de tensão. Lúcia controla-se para se ater à garrafa de vinho. Beberam meia garrafa de vinho. Riram um pouco. Tensão. As cabeças de Lúcia e de Alcides estavam borbulhando, em temperatura de explodir. Quando os corpos não mais agüentaram a distância, voaram um sobre o outro. Agora estão sob o efeito da lua, do vinho, da corrente química que passa pelos corpos. Completamente embriagados.
Caem na cama, já sem roupas. Precisavam se despir. Precisavam ser um só, sentir o calor do corpo do outro. E como era quente! Nenhum dos dois havia sentido isto antes. Eram descontrolados. Os corpos agiam por si só, sem pensar, se pediam e careciam um do outro. Não tinham idéia do quanto.
Carícias selvagens por todos os lados. Gemidos. Sensações. Aromas e odores desconhecidos e altamente histéricos. Um virava sobre o outro, por cima, por baixo, de lado, de pé, de quatro, de ponta-cabeça, fazendo acrobacias de todos os tipos. E não era exibicionismo, era pura e simples excitação. Os dois se desejavam, faziam amor como nunca antes fizeram em suas vidas.
Que sensação era aquela? Um gozo infinito.
E após a maior das sensações já vivida, eles se calaram. Cada um num canto da cama, num mergulho tão pessoal e indescritível.
Lúcia espera que Alcides fale alguma coisa. Ele não quer falar, não tem como falar. Ela pergunta:
Ainda quer ficar comigo?
Alcides pensa. Ele quer, mas não pode. Ele a deseja, mas não pode. Como não ter controle de si mesmo? Como não poder controlar uma embriaguez? Esse envolvimento seria um risco, e por mais ousado que fosse, ele se amava muito e não suportava a falta de domínio, de controle sobre o outro e sobre ele mesmo. Novamente pensa. O silêncio é angustiante para ambos. Diz:
Você está certa. Somos incompatíveis.
E outra vez, Lúcia mergulha na realidade. Como farei para ter para sempre o tesouro comigo?
* Conto de Vanessa Morelli devidamente registrado na Biblioteca Nacional.
Contato: vamorelli@ajato.com.br
Lúcia é poetisa. Gosta de lua e boemia. Tem um anel que lhe foi dado de geração pra geração e o guarda com muito carinho. Guarda porque não pode usar. É uma relíquia que vem de seus antepassados, em ouro e pedras preciosas, de valor emotivo, muito cara. Fragilizada por sua natureza sensível, precisa descobrir uma maneira de ganhar dinheiro suficiente para pagar suas dívidas que são muitas, caso contrário terá de vender esse tesouro que para ela não tem preço. Sua família jamais a perdoaria.
Sozinha, Lúcia faz o que pode. Não é extrovertida. Sua natureza é contida e exteriorizar emoções, para ela e para o mundo, é praticamente impossível. Lúcia quer ser mãe, quer ter uma filha, uma menina que possa dar continuidade à família Sousa.
Alcides é apaixonado por Lúcia, mas ela não está preparada para ele. Ela nunca está preparada. Esta mulher poetisa não está pronta ainda para um relacionamento amoroso e afetivo. Mas Alcides é teimoso e acredita que querer é poder. Todos os dias, leva um buquê para Lúcia que, como sempre, fica sem palavras.
Ela até gosta de Alcides, mas o acha um tanto soberbo, materialista, um molde da sociedade capitalista. Mesmo assim, sente uma certa afinidade, embora não saiba transformar em palavras o que de fato sente.
Fica comigo, vamos! Vou te fazer feliz.
Lúcia ouve as declarações de Alcides com atenção e tenta buscar uma explicação. Tem de responder, mas o que responder? Sim, fico? Não, somos incompatíveis?
Alcides teve dificuldades na infância. Seus pais haviam se separado enquanto ele era menino. Passou a maior parte da sua adolescência entre ir e vir, o que explica sua carência afetiva e uma vontade de se prender a algo concreto. Sabe que a família que irá escolher poderá fazê-lo feliz, um homem satisfeito. Sabe que a vida é feita de escolhas e nem sempre as pessoas são da maneira que se quer, às vezes é preciso tolerá-las.
Lúcia tem pressão baixa. Alcides tem pressão alta. E se dizem que os opostos se atraem, esse casal haveria de ter uma união perfeita. Lúcia gostava de humanas, de ler e escrever, principalmente poemas, já Alcides adorava números, era uma calculadora ambulante.
Lúcia ainda não respondeu. Tem de dar alguma resposta, qualquer uma, sim ou não. Mas tem medo. Lúcia tem medo. Medo da vida, medo de tudo. Tem medo de se arriscar. Ela sabe que Alcides é corajoso, ambicioso e amoral. Sente seu sangue correr de forma vibrante e irregular. Sabe que se ficar com ele é por pouco tempo. Ela é água, ele é óleo, ambos não se misturam. A sua transparência a incomoda, quer ser tão profunda quanto Alcides. Não sabe que Alcides quer ser água como ela.
Os dois falam muito. Ela, por defesa. Ele, por narcisismo. Alcides adora chamar atenção e sabe disso. Lúcia também gosta, também quer, mas desconhece.
E então... juntos ou não?
A paciência de Alcides não é muita, a de Lúcia também não. Alcides é sincero, embora sua sinceridade às vezes machuque. Lúcia também é sincera, até certo ponto.
Os dois se abraçam. Olham-se. Beijam-se com uma tensão violenta. Existe uma química fortíssima entre eles. Não se agüentam, é muito desejo. O sangue corre nas veias bombeando o coração e a mente embriagada de muita química hormonal. É vibrante, inquietante. Querem se livrar das roupas, mas não podem. Lúcia e Alcides estão em ambiente público.
Vamos para outro lugar?
Lúcia vacila. Devo ou não devo? Vai então.
Só conseguem pensar em saciar esta sede. A brasa queima violentamente. Os dois esqueceram a calma bem no momento em que aconteceu aquele beijo. Foi no beijo. Aquele beijo acumulou mais tensão da que estava presente. O desejo é delinqüente. Lúcia pensava: “é ele!”, “eu quero”, “eu desejo”, “eu amo”, “eu enlouqueço”.
Passam antes num posto, colocam gasolina, calibram os pneus e entram na loja de conveniência para comprar algumas coisinhas para acrescentar essa noite que desperta os animais mais tranqüilos da floresta. Chegam no motel com uma garrafa de vinho na mão. Não havia copo e esqueceram de comprar. Decidem beber no gargalo. Alcides fica altamente sob frágil situação de tensão. Lúcia controla-se para se ater à garrafa de vinho. Beberam meia garrafa de vinho. Riram um pouco. Tensão. As cabeças de Lúcia e de Alcides estavam borbulhando, em temperatura de explodir. Quando os corpos não mais agüentaram a distância, voaram um sobre o outro. Agora estão sob o efeito da lua, do vinho, da corrente química que passa pelos corpos. Completamente embriagados.
Caem na cama, já sem roupas. Precisavam se despir. Precisavam ser um só, sentir o calor do corpo do outro. E como era quente! Nenhum dos dois havia sentido isto antes. Eram descontrolados. Os corpos agiam por si só, sem pensar, se pediam e careciam um do outro. Não tinham idéia do quanto.
Carícias selvagens por todos os lados. Gemidos. Sensações. Aromas e odores desconhecidos e altamente histéricos. Um virava sobre o outro, por cima, por baixo, de lado, de pé, de quatro, de ponta-cabeça, fazendo acrobacias de todos os tipos. E não era exibicionismo, era pura e simples excitação. Os dois se desejavam, faziam amor como nunca antes fizeram em suas vidas.
Que sensação era aquela? Um gozo infinito.
E após a maior das sensações já vivida, eles se calaram. Cada um num canto da cama, num mergulho tão pessoal e indescritível.
Lúcia espera que Alcides fale alguma coisa. Ele não quer falar, não tem como falar. Ela pergunta:
Ainda quer ficar comigo?
Alcides pensa. Ele quer, mas não pode. Ele a deseja, mas não pode. Como não ter controle de si mesmo? Como não poder controlar uma embriaguez? Esse envolvimento seria um risco, e por mais ousado que fosse, ele se amava muito e não suportava a falta de domínio, de controle sobre o outro e sobre ele mesmo. Novamente pensa. O silêncio é angustiante para ambos. Diz:
Você está certa. Somos incompatíveis.
E outra vez, Lúcia mergulha na realidade. Como farei para ter para sempre o tesouro comigo?
* Conto de Vanessa Morelli devidamente registrado na Biblioteca Nacional.
Contato: vamorelli@ajato.com.br
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