sábado, 29 de dezembro de 2007

Amanhã / Futuro

Imagine tocar o impensado,
um tempo não cronometrado,
um estado desafetado,
um espaço inexistente.

Mistura de ingredientes sem sentido,
Complete com desatino,
Some o inacabado
E finalize incoerente.

Imagine ressucitar Leary,
Discutir assuntos com Einstein,
Puxar a cadeira do Coelho
E falar cara-cara com Assis.

Dessas impossibilidades raras,
Surge uma Terra inabitada,
Não há forma organizada.
Afaste-se, Vivência Ausente!


By Morelli ®


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segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

CARTAS PARA O AMANHÃ

Carta-resposta escrita por Vanessa Morelli dia 24/12/2007 (Cartas para o Amanhã... n° 02):


Caríssima amiga, companheira de sonhos e ilusões e tão distante em matéria, Faz algum tempo que não me coloco a escrever uma carta - objeto tão pessoal - e articular idéias que inevitavelmente guiaram-me ao conhecimento de mim mesma parece constrangedor, creio que a sensação é a mesma de um pudor frente a descoberta, afinal mudamos todos os dias, entretanto reconhecer-nos não é tarefa fácil.

Encontro-me num belo dia - adoro o sol. Esse calor aquece não meu corpo, mas minha alma, e mesmo tendo seu tempo de ação (a noite chegará), deixo-me ser acariciada por essa paisagem de cores quentes e alegres. Tudo é tão cronometrado, calculado, muitas vezes a precisão é algo certeiro, poderia muito bem viver somente com a luz do sol a corar minhas faces e agradeceria feliz todos os dias a Deus. Ele não me ouve, não costuma me presentear com meus desejos. Sei que me testa o tempo inteiro procurando meus pontos fracos e tentando fazer de mim alguém mais forte, apenas me convenço de que ele deve querer meu melhor, dessa maneira não provoca minha ira e nem tira de mim minhas alucinações, visões, delírios e artifícios.

No auge da neutralidade meus pensamentos vagueiam hoje, como se fosse impossível sonhar com um outro mundo além desse. Será? Sou uma criatura contraditória, aleatória, tão confusa em idéias e ações. Quisera eu ter atitudes constantes e me perceber mais estável, pois não? Impossível! Eu tento, confesso que tento, porém, teimosa como sou, luto patinando em manteiga, eternamente a escorregar, entretanto sempre caindo na direção certa e escapando na intuição. A vida é assim... um pedaço do não explicado, misteriosa e ambiciosa, sempre a dar novos frutos e mais frutos.

Questionamentos a parte, é quase natal, quase ceia, quase união. Faltam horas! Pessoas apressadas a comprar peru, chester ou tender; cereja, figo, melancia ou outras frutas; castanhas, avelãs, pistaches, amêndoas, nozes, ou outras similares. Presentes! Vários! Pra família inteira, pros amigos, conhecidos, pros animais de estimação, a vontade de dar e receber transparece em todos os olhares deixando aquele resquício de carência e ternura. Todos vulneráveis e implorando inconscientemente por afeto. Sou uma dessas pessoas, rezando pra ser uma boa lembrança entre os conhecidos pra que assim tenha momentos especiais típicos do natal: cartões, telefonemas, recados e presentes. Dádiva! Dom! Oferenda, uma simples oferta e mais nada.

Concluindo, o mais próximo do amanhã que consigo chegar são algumas horas, me parece elegante de minha parte então finalizar esta mensagem com o que é admitido pelo uso: Feliz natal, minha querida! Ass. Morelli.


Carta-desafio-resposta escrita por Lunna Guedes dia 24/12/2007 (Cartas para o Amanhã... n° 02):

Escrevo-te a bordo de uma tarde de sol, onde pequenos maços de algodão se exibem junto a paisagem. Alguns chamam de nuvens, outros de cirrus... Eu fico com os maços de algodão mesmo.

Trago em mim a alegria de saber que essas palavras chegaram até seus olhos, mais cedo ou mais tarde. Não importa! Sei que em algum momento seus olhos identificarão essas palavras e saberão do meu silencio do lado de cá junto a jabuticabeira que já se mostra ausente de frutos...

A paisagem se mostra calma, ouço vozes ao longe, as festividades nos vizinhos começaram mais cedo. Eu sigo ausente das comemorações. Sigo com meu silencio brincalhão saltando junto aos pássaros que estão alegres e cantam em seus saltos de galhos em galhos. Eu vou com eles...

Daqui a pouco serão três horas desse dia sem data (não sigo o calendário) não acompanho os ponteiros, mas sei que daqui a pouco será três horas. Como sei? Sinto fome, aquela fome de palavras saltando aos olhos como os pássaros o fazem nos galhos lá fora...

Propus a construção dessa carta e de muitas outras na tarde de hoje porque queria falar a você da forma de inteligência que o ser humano encarnou nos dias atuais. Tudo me parece tão pobre e pequeno, que fico ansiosa para que o hoje se torne ontem e não mais volte...

Então, espero pelo amanhã, aquele que nunca vem bater na minha janela... Mas eu espero, uma hora o alcanço, só espero que a morte não chegue a mim primeiro. Então, enquanto espero, observo os homens que passam por minha janela. Você passou mais cedo e trouxe uma forma diferente de surpresa. Me levou com você para uma mesa de café na tarde de chuva. E como chovia! E como falávamos de nós e de outros e até um outro ousou se apresentar a nós.

Hoje não vivo saudades. Hoje estou em mim, aqui, sentada. Quieta... Num silencio que só mesmo os pássaros hão de compreender e você que instiga o meu pensamento deve estar a emitir suas gargalhadas sonoras ao pensar neste silêncio que é comum a mim quando minha mente delira de fronte a tela... Deve pensar no que escrever ao imaginar-me assim em silêncio. Este silencio que você desconhece em mim...

Andamos ausentes de nós... Voltei de viagem e no entanto, parece que estou ainda do outro lado do oceano no que se refere a você. Falta-nos vestir um abraço e pensar bobagens enquanto você fuma e eu bebo meu capuccino na Livraria da Vila. Sempre nos permitimos falar o hoje e nunca brindamos o amanhã. Esse parece um cenário de uma peça que você ainda vai escrever, mas não quer pensar sobre hoje...

E eu venho serenar seus nervos e para tal escrevo pensando uma folha de fundo azul, com nuvens e maços de algodão. Venho tecendo a infância, num percurso de trem com um maquinário movido a carvão. Venho pensando no sonhos que nos abraçarão e o que diremos nós desta que somos hoje. Falar do amanhã nunca será para nós porque sempre preferimos o passado, esse mestre que nos revela a saudade daquilo que fizemos porque lá estão as concretizações. Sei que você se lembra de pelo menos meia dúzia delas... E já começo a crer que talvez seja mais fácil no encontrarmos no ontem que neste tal amanhã...

Venho lhe beijar as mãos em forma de verso, onde rascunho um pensamento e deixo transparecer minha gratidão pelo que veio de ti até então e quem sabe juntas possamos esperar pelo amanhã... Aquele que há de vir e juntar-se a nós para enfim espiarmos o que fizemos ou deixamos de fazer. Viu para que serve o amanhã? Abraços meus, Lunna Guedes.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

MECÂNICOS

Conto de Vanessa Morelli

Um escritor muito hábil, Luide Taroco, escrevia seu primeiro romance. Não bem escrevia porque não sabia, mas ainda não havia desistido da profissão que escolhera. Enquanto seus amigos já tinham publicado mais de dez livros entre poesias, prosas e romances, ele tentava persistentemente escrever seu primeiro. Era ágil no discurso oral, entretanto suas idéias processavam de maneira tão veloz que antes de as colocar no papel, havia esquecido todas.

Cansado, exausto de tanto fervor e devoção e tão pouca vocação, manuseou sua máquina tentando descobrir uma solução. Quais os passos que deveriam surgir em sua vida tranqüila e metódica?

Todas as manhãs, Luide Taroco se levantava , tomava o seu café preto “substancial” – como costumava dizer, organizava seus livros e revistas e ia à banca comprar jornal para quem sabe ter um surto criativo, mas não! Desanimado, abria uma garrafa de whisky e contemplava o rótulo. Era um hábito solidificado, nada fragmentado e com teor risível, digno de delírios e de imaginações atordoadas.

Quando o efeito do álcool passava, lembrava-se do almoço, por volta das quatro horas da tarde. Então ia para frente da máquina de escrever e lá ficava durante horas, até adormecer. Luide Taroco era ultrapassado, detestava computador. Era um hábito que virou mania e que tornou-se vício.

Começou a fumar meses depois, logo que a morte de sua mãe foi revelada. Dizia que era influência dos amigos - más companhias, adicionava. Entristeceu-se, mas Luide Taroco era forte, era um homem de fibra. Passou a acender um cigarro no outro e comentava:

- Essa droga é boa, mas o hálito é insuportável.

De tal forma o incomodava que começou a fazer gargarejos e com tanta força escovava os dentes que passou a ter gengivite.

Voltava-se para a máquina de escrever – sua companheira. E teve um acesso de fluidez. Suas mãos gananciosamente batiam teclas e mais teclas e escreveu, como um louco, mas escreveu!
O título da fantástica obra chamava “A autodestruição do Planeta Terra”. Porém, achou o título pobre e de mau gosto. Corrigiu:

- O dia em que a Terra conheceu a sombra! Não, muito longo... Sopro da Terra!

Depois de muito pensar, finalizou: “Terra na sombra”. O seu livro era uma premeditação do que aconteceria, claro que ele não sabia que era um Nostradamus. Nem Nostradamus sabia quem ele mesmo era! Sua criação era um oráculo! Uma previsão!

Luide Taroco, orgulhoso, pela primeira vez, da sua obra acabada, começou então a fazer planos para o futuro. Imaginou um iate no meio do mar, uma casa na praia, uma mulher com todos os requisitos para uma ótima esposa e sonhava ardentemente num espírito materialista e compulsivo.

Listou apartamentos que poderia comprar à beira mar, orçou iates de todos os tipos e tamanhos e notou a beleza das mulheres porque agora sim ele era dono de si. Foi quando, de repente, numa dessas saídas em busca de luxúria e prazeres da carne que o mundo começou a desabar.

Um terremoto maior de todos os tempos havia atingido toda a costa litorânea e, por graça divina, alguns conseguiram escapar. Luide era um deles. Pensou alto:

- Deve ser algo passageiro, um acontecimento inusitado da natureza. Ainda hei de comprar uma cobertura nas praias brasileiras.

Em casa, lendo o jornal, como de costume, lê uma notícia que o atordoa por alguns longos minutos. Toda a costa litorânea havia sido tomada pelas águas do mar.

- Mas como pode ser um negócio desse? Justo agora? – esbravejou.

Os seus sonhos desabaram, mas Luide não se deixou perturbar. Resgatou suas forças e tratou de reavaliar seus desejos consumistas.

As notícias veiculadas alarmaram a população. O calor intensificava de tal maneira que todos os dias tinha gente morrendo por desidratação. A dengue fazia festa. O pânico foi causando caos. A desordem era total. Muita gente deixou de trabalhar, os que iam ficavam até mais tarde porque a empresa possuía ar-condicionado.

Dia após dia a Terra aquecia, pessoas morriam, os jornais noticiavam. Geleiras virando água e alagando cidades. Morriam afogadas ou por desidratação.

Luide Taroco era um dos sobreviventes. Desacreditava no que estava acontecendo. O mundo era um grande tormento, assim como havia escrito. Estava petrificado com a situação. Seus amigos estavam mortos e se não estavam, não havia mais modo de saber.

Não existia mais comércio, os jornais fecharam as portas, não porque não haviam notícias, mas os canais de comunicação haviam sido destruídos. Linhas telefônicas, editoras, emissoras de televisão, de rádio, tudo danificado, devastado.

Os alimentos começaram a escassear. A violência há muito imperava. Cidadãos tentando salvar suas próprias vidas e de suas famílias. Vulcões começaram a entrar em erupção, um atrás do outro. A Terra virava novamente uma bola incandescente.

Todos desesperados, lutando pela sobrevivência. As leis dos homens não mais existiam. Agora era cada um por si. As poucas igrejas que restavam concentravam fiéis fervorosos que oravam ininterruptamente, clamando por uma misericórdia divina. Luide Taroco estava entre eles. Uns acreditavam que o mundo ia acabar, que havia chegado o apocalipse final, outros que esse transtorno devia ser somente uma transição, mas que tudo ficaria bem e poderiam voltar a ter uma vida. Esses últimos eram mais esperançosos, pois a destruição era tanta que só mesmo o otimismo para lhes dar esperança. Luide se encontrava entre os primeiros, em que havia chegado realmente o momento de uma nova era e seriam extintos, assim como os dinossauros. Luide estava certo, seu romance tinha previsto.

Os tripulantes da nave descansavam, visto o trabalho exaustivo que tiveram durante vinte e quatro horas ininterruptas do dia anterior. O perigo havia sido dramático. Muitos enlouqueceram, sangraram, sufocaram, vítimas de seu próprio corpo-máquina. Mecânicos eram chamados.

Os seres humanos passaram a ser lenda. Agora os Mecânicos dominam a Terra, uma nova terra, compactada, sem recursos e altamente dizimada.

O mal do século XXI, o estresse, já não fazia mais parte do vocabulário. Questões ambientais também não eram mais discutidas, visto que as costas litorâneas de fato haviam sido tomadas pelos mares, os oceanos convulsionaram-se e os vulcões emergiram por toda a parte. Foi conhecido como o século do caos, da desordem, da constante provocação da natureza contra si e contra todos. Os sobreviventes do século viveram precariamente toda uma geração. Seus descendentes estudaram maneiras de construir um templo fechado, finalizado séculos depois. Readaptados e todos mutantes foram os novos seres do século XXX e que se autodenominaram Mecânicos. Uma nova forma de vida corporal que agia, programados como computadores, mas obras da Mãe-Natureza e não mais dos homens.

A temperatura do planeta chegava a oitenta graus, não permitindo qualquer tipo de vida ultrapassada. Os que conseguiram se adequar ao novo mundo, às transformações rápidas e altamente destrutivas possuíam um novo corpo, uma nova forma de vida: metade máquina, metade vida orgânica.

Esses poucos sobreviventes possuíam uma alimentação restrita a um tipo de líquido fornecido por esse ambiente modificado. A reprodução era feita de forma eficiente, controlavam instintivamente, já que os recursos eram insuficientes.

Herdeiros do novo milênio, os Mecânicos não se emocionavam, nem pensavam, eram conduzidos por uma forte força instintiva e por máquinas que equacionavam suas funções e reações. Sobreviventes, readaptados e mutantes são os Mecânicos. Geram o que ainda restou dos séculos anteriores, mas criam o Novo Século: o século XXX.

As atividades diárias exerciam movimentos repetitivos e falta de lucidez. Os que infringiam as normas de conduta utilizando a razão eram sabotados por seu próprio corpo-máquina. Morriam, sufocados por um ar que lhes rompiam os pulmões, o oxigênio.

Pi pi pi – um alarme soa. Os tripulantes da nave levantam-se, andam robotizados e seguem o percurso de acordo com o mapa da mente. Sentam em suas respectivas cadeiras e operam um sistema, uma tecnologia muito avançada. O combustível é um certo tipo de ácido. Os Mecânicos registram a ocorrência do perigo, a máquina dá as suas instruções. Eles as cumprem, etapa por etapa. O alarme continua a soar. Os Mecânicos digitam novas ocorrências, a máquina novamente dá o comando. Eles seguem as novas ordens. O alarme toca. Eles operam. A máquina potencializa ações. Cumprem. Continuada a seqüência, finalmente o alarme é interrompido. O silêncio reina. Mais uma vez os Mecânicos sobrevivem. Fim do processo.

E Luide Taroco – que triste – não viveu para ver sua obra publicada, nem deixou descendentes. Ninguém soube que um dia ele seria um grande escritor.




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quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

FALA SÉRIO

Autoria: Vanessa Morelli

- Fala sério! As pessoas que sabem menos são as mais arrogantes, defendem-se o tempo todo como se a qualquer momento fosse tomar um soco. Uma muralha de proteção contra o nada. A falta de crença em si mesmo destrói a beleza da verdade e da ingenuidade. Vive-se num mundo de quem conta a maior mentira, quem é melhor que quem. Será minha visão pessimista? - diz Genuína.

- Bem... não sei. Vou contar uma experiência que pode ser como uma antena Am transmitindo ondas que esbarram na primeira montanha alta. Estávamos selecionando um projeto que deveria ser apresentado diante de todos os grandes escalões de uma respeitada empresa. Muitos disseram, disseram e disseram e não falaram nada, outros cinco explicaram seus projetos minuciosamente com detalhes e perspectivas estudadas, comparadas e analisadas com bases sustentadas e coerentes. Agora lhe pergunto: quais foram os escolhidos para o desenvolvimento do projeto? - pergunta Severo.

- Obviamente os cinco que tornaram seus projetos racionalmente justificados.

- Pois bem, embora tenham sido perspicazes e minuciosos, faltou um ingrediente importante: audácia. E não apenas isso. A empresa escolheu os que disseram muito sem dizer nada porque o grande diferencial dentre esses e os outros era a crença na certeza de suas convicções. O que venderam? Fantasia e ilusão. O mundo já está cheio de receitas óbvias, aquele que conseguir trabalhar o velho com os olhos do novo transformando ilusão em realidade é o Grande Vencedor. Todos tinham 50 % de acertar ou errar, a fórmula ninguém ainda possuía, só o caminho para ela. Não existem receitas prontas, apenas tentativas que dão certo. Respondi sua pergunta?


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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

A questão que se coloca...

Roteiro da apresentação do dia 22/11/2007 (quinta-feira). Curso de Extensão, Usp, Domenico Hur: ESQUIZOANÁLISE. Esse texto foi elaborado a partir do Texto: Pra Acabar com o Julgamento de Deus, de Artaud. A proposta era trabalhar a percepção do individuo através de imagens e sons (coerentes e incoerentes), propôr um encontro de rompimento eu-instituído.

TATI: (abre a porta da sala, entra e comunica) A questão que se coloca...
(do lado de fora, aumenta-se o tom de voz gradualmente)
VANY: A questão que se coloca...
RAPHA: A questão que se coloca...
CAROL: A questão que se coloca...
TATI: O que é grave é sabermos que atrás da ordem deste mundo existe uma outra.
VANY: é sabermos que atrás da ordem deste mundo existe uma outra.
(bate no ombro da Tati que cai - forma estilizada)
RAPHA: que atrás da ordem deste mundo existe uma outra.
(bate no ombro da Vany que cai)
CAROL: existe uma outra. (bate no ombro do Rapha que cai)
(Lembrando que a "caída" é sempre estilizada)
TATI: Que é noite,
VANY: Nada,
RAPHA: Irreflexão
CAROL: Meu corpo.
TODOS: Não sei. (pausa) Mas sei que...
TATI: O espaço,
VANY: O tempo,
RAPHA: A dimensão,
CAROL: O devir,
TATI: O futuro,
VANY: O destino,
RAPHA: O ser,
CAROL: O não-ser.
TODOS: O Eu. (pausa) Eu, indivíduo, indústria, instituição, eu integrada, eu desunido. PARTI.
(tambor - remanejar-se na sala)
TATI: Senhores, queiram colocar o cinto de segurança que a viagem vai começar e quem sai vivo só Deus irá julgar.
VANY: o cinto de segurança que a viagem vai começar e quem sai vivo só Deus irá julgar.
RAPHA: a viagem vai começar e quem sai vivo só Deus irá julgar.
CAROL: quem sai vivo só Deus irá julgar.
TATI: Virem suas respectivas cadeiras com o olhar direcionado para a parede.
VANY: suas respectivas cadeiras com o olhar direcionado para a parede.
RAPHA: com o olhar direcionado para a parede.
CAROL: para a parede.
TODOS: (como gagos) As ven das de vem ser co lo ca das nos o lhos. (como robôs) A luz está sendo apagada.
(mùsica - 30 segundos da mesma, tempo para acender as velas e os incensos e preparar-se para o contato sensorial com o público. Caos tribal. Água em burifador, pena, café, perfume, óleo... etc. Após esse contato, o espelho passará nas mãos de cada um. )
TATI: Parece dificil mas há uma forma de nos verem sem tirar os olhos da parede e este meio será passado de mão em mão.
VANY: Parece difícil.
RAPHA: Forma de nos verem.
CAROL: Passado de mão em mão.
(disco enferrujado, várias palavras faladas aleatoriamente - ombro no ombro - ad infinitum)
(Poesias - Papéis dobrados no meio da sala. Cada um será tirado para participar do grupo dos 4 até finalizar com todos indivíduos formando um único grupo.)

* O final foi bem interessante porque saiu totalmente do pré-estabelecido. O que era para provocar uma junção dentro do círculo não aconteceu. As pessoas como se obedecendo a uma ordem (não mencionada) pegavam seus poemas, liam e voltavam para sua respectiva cadeira.

Frases para conhecimento:
1. Michel Foucalt: A verdade nada mais é do que uma mentira que não pode ser contestada em um determinado momento.
2. Prazer em exercer um poder que questiona, fiscaliza, espreita, espia, investiga, apalpa, revela, prazer de escapar a esse poder. Poder que se deixa invadir pelo prazer que persegue - poder que se afirma no prazer de mostrar-se, de escandalizar, de resistir. Prazer e poder.
Um novo prazer surgiu: o de contar e o de ouvir. Dever de dizer tudo. Confessa! É obrigação a confissão.
3. Estimulação dos corpos, da intensificação dos prazeres, da incitação do discurso, da formação dos conhecimentos, do reforço dos controles e das resistências. Socialmente construída. Aceite a verdade que mais lhe convém ou invente novas verdades.
Participaram dessa apresentação:
Carol Vita, Tatiane Janke, Raphael Enrique e Vanessa Morelli.