sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

MECÂNICOS

Conto de Vanessa Morelli

Um escritor muito hábil, Luide Taroco, escrevia seu primeiro romance. Não bem escrevia porque não sabia, mas ainda não havia desistido da profissão que escolhera. Enquanto seus amigos já tinham publicado mais de dez livros entre poesias, prosas e romances, ele tentava persistentemente escrever seu primeiro. Era ágil no discurso oral, entretanto suas idéias processavam de maneira tão veloz que antes de as colocar no papel, havia esquecido todas.

Cansado, exausto de tanto fervor e devoção e tão pouca vocação, manuseou sua máquina tentando descobrir uma solução. Quais os passos que deveriam surgir em sua vida tranqüila e metódica?

Todas as manhãs, Luide Taroco se levantava , tomava o seu café preto “substancial” – como costumava dizer, organizava seus livros e revistas e ia à banca comprar jornal para quem sabe ter um surto criativo, mas não! Desanimado, abria uma garrafa de whisky e contemplava o rótulo. Era um hábito solidificado, nada fragmentado e com teor risível, digno de delírios e de imaginações atordoadas.

Quando o efeito do álcool passava, lembrava-se do almoço, por volta das quatro horas da tarde. Então ia para frente da máquina de escrever e lá ficava durante horas, até adormecer. Luide Taroco era ultrapassado, detestava computador. Era um hábito que virou mania e que tornou-se vício.

Começou a fumar meses depois, logo que a morte de sua mãe foi revelada. Dizia que era influência dos amigos - más companhias, adicionava. Entristeceu-se, mas Luide Taroco era forte, era um homem de fibra. Passou a acender um cigarro no outro e comentava:

- Essa droga é boa, mas o hálito é insuportável.

De tal forma o incomodava que começou a fazer gargarejos e com tanta força escovava os dentes que passou a ter gengivite.

Voltava-se para a máquina de escrever – sua companheira. E teve um acesso de fluidez. Suas mãos gananciosamente batiam teclas e mais teclas e escreveu, como um louco, mas escreveu!
O título da fantástica obra chamava “A autodestruição do Planeta Terra”. Porém, achou o título pobre e de mau gosto. Corrigiu:

- O dia em que a Terra conheceu a sombra! Não, muito longo... Sopro da Terra!

Depois de muito pensar, finalizou: “Terra na sombra”. O seu livro era uma premeditação do que aconteceria, claro que ele não sabia que era um Nostradamus. Nem Nostradamus sabia quem ele mesmo era! Sua criação era um oráculo! Uma previsão!

Luide Taroco, orgulhoso, pela primeira vez, da sua obra acabada, começou então a fazer planos para o futuro. Imaginou um iate no meio do mar, uma casa na praia, uma mulher com todos os requisitos para uma ótima esposa e sonhava ardentemente num espírito materialista e compulsivo.

Listou apartamentos que poderia comprar à beira mar, orçou iates de todos os tipos e tamanhos e notou a beleza das mulheres porque agora sim ele era dono de si. Foi quando, de repente, numa dessas saídas em busca de luxúria e prazeres da carne que o mundo começou a desabar.

Um terremoto maior de todos os tempos havia atingido toda a costa litorânea e, por graça divina, alguns conseguiram escapar. Luide era um deles. Pensou alto:

- Deve ser algo passageiro, um acontecimento inusitado da natureza. Ainda hei de comprar uma cobertura nas praias brasileiras.

Em casa, lendo o jornal, como de costume, lê uma notícia que o atordoa por alguns longos minutos. Toda a costa litorânea havia sido tomada pelas águas do mar.

- Mas como pode ser um negócio desse? Justo agora? – esbravejou.

Os seus sonhos desabaram, mas Luide não se deixou perturbar. Resgatou suas forças e tratou de reavaliar seus desejos consumistas.

As notícias veiculadas alarmaram a população. O calor intensificava de tal maneira que todos os dias tinha gente morrendo por desidratação. A dengue fazia festa. O pânico foi causando caos. A desordem era total. Muita gente deixou de trabalhar, os que iam ficavam até mais tarde porque a empresa possuía ar-condicionado.

Dia após dia a Terra aquecia, pessoas morriam, os jornais noticiavam. Geleiras virando água e alagando cidades. Morriam afogadas ou por desidratação.

Luide Taroco era um dos sobreviventes. Desacreditava no que estava acontecendo. O mundo era um grande tormento, assim como havia escrito. Estava petrificado com a situação. Seus amigos estavam mortos e se não estavam, não havia mais modo de saber.

Não existia mais comércio, os jornais fecharam as portas, não porque não haviam notícias, mas os canais de comunicação haviam sido destruídos. Linhas telefônicas, editoras, emissoras de televisão, de rádio, tudo danificado, devastado.

Os alimentos começaram a escassear. A violência há muito imperava. Cidadãos tentando salvar suas próprias vidas e de suas famílias. Vulcões começaram a entrar em erupção, um atrás do outro. A Terra virava novamente uma bola incandescente.

Todos desesperados, lutando pela sobrevivência. As leis dos homens não mais existiam. Agora era cada um por si. As poucas igrejas que restavam concentravam fiéis fervorosos que oravam ininterruptamente, clamando por uma misericórdia divina. Luide Taroco estava entre eles. Uns acreditavam que o mundo ia acabar, que havia chegado o apocalipse final, outros que esse transtorno devia ser somente uma transição, mas que tudo ficaria bem e poderiam voltar a ter uma vida. Esses últimos eram mais esperançosos, pois a destruição era tanta que só mesmo o otimismo para lhes dar esperança. Luide se encontrava entre os primeiros, em que havia chegado realmente o momento de uma nova era e seriam extintos, assim como os dinossauros. Luide estava certo, seu romance tinha previsto.

Os tripulantes da nave descansavam, visto o trabalho exaustivo que tiveram durante vinte e quatro horas ininterruptas do dia anterior. O perigo havia sido dramático. Muitos enlouqueceram, sangraram, sufocaram, vítimas de seu próprio corpo-máquina. Mecânicos eram chamados.

Os seres humanos passaram a ser lenda. Agora os Mecânicos dominam a Terra, uma nova terra, compactada, sem recursos e altamente dizimada.

O mal do século XXI, o estresse, já não fazia mais parte do vocabulário. Questões ambientais também não eram mais discutidas, visto que as costas litorâneas de fato haviam sido tomadas pelos mares, os oceanos convulsionaram-se e os vulcões emergiram por toda a parte. Foi conhecido como o século do caos, da desordem, da constante provocação da natureza contra si e contra todos. Os sobreviventes do século viveram precariamente toda uma geração. Seus descendentes estudaram maneiras de construir um templo fechado, finalizado séculos depois. Readaptados e todos mutantes foram os novos seres do século XXX e que se autodenominaram Mecânicos. Uma nova forma de vida corporal que agia, programados como computadores, mas obras da Mãe-Natureza e não mais dos homens.

A temperatura do planeta chegava a oitenta graus, não permitindo qualquer tipo de vida ultrapassada. Os que conseguiram se adequar ao novo mundo, às transformações rápidas e altamente destrutivas possuíam um novo corpo, uma nova forma de vida: metade máquina, metade vida orgânica.

Esses poucos sobreviventes possuíam uma alimentação restrita a um tipo de líquido fornecido por esse ambiente modificado. A reprodução era feita de forma eficiente, controlavam instintivamente, já que os recursos eram insuficientes.

Herdeiros do novo milênio, os Mecânicos não se emocionavam, nem pensavam, eram conduzidos por uma forte força instintiva e por máquinas que equacionavam suas funções e reações. Sobreviventes, readaptados e mutantes são os Mecânicos. Geram o que ainda restou dos séculos anteriores, mas criam o Novo Século: o século XXX.

As atividades diárias exerciam movimentos repetitivos e falta de lucidez. Os que infringiam as normas de conduta utilizando a razão eram sabotados por seu próprio corpo-máquina. Morriam, sufocados por um ar que lhes rompiam os pulmões, o oxigênio.

Pi pi pi – um alarme soa. Os tripulantes da nave levantam-se, andam robotizados e seguem o percurso de acordo com o mapa da mente. Sentam em suas respectivas cadeiras e operam um sistema, uma tecnologia muito avançada. O combustível é um certo tipo de ácido. Os Mecânicos registram a ocorrência do perigo, a máquina dá as suas instruções. Eles as cumprem, etapa por etapa. O alarme continua a soar. Os Mecânicos digitam novas ocorrências, a máquina novamente dá o comando. Eles seguem as novas ordens. O alarme toca. Eles operam. A máquina potencializa ações. Cumprem. Continuada a seqüência, finalmente o alarme é interrompido. O silêncio reina. Mais uma vez os Mecânicos sobrevivem. Fim do processo.

E Luide Taroco – que triste – não viveu para ver sua obra publicada, nem deixou descendentes. Ninguém soube que um dia ele seria um grande escritor.




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Também o texto se encontra registrado na Biblioteca Nacional.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

FALA SÉRIO

Autoria: Vanessa Morelli

- Fala sério! As pessoas que sabem menos são as mais arrogantes, defendem-se o tempo todo como se a qualquer momento fosse tomar um soco. Uma muralha de proteção contra o nada. A falta de crença em si mesmo destrói a beleza da verdade e da ingenuidade. Vive-se num mundo de quem conta a maior mentira, quem é melhor que quem. Será minha visão pessimista? - diz Genuína.

- Bem... não sei. Vou contar uma experiência que pode ser como uma antena Am transmitindo ondas que esbarram na primeira montanha alta. Estávamos selecionando um projeto que deveria ser apresentado diante de todos os grandes escalões de uma respeitada empresa. Muitos disseram, disseram e disseram e não falaram nada, outros cinco explicaram seus projetos minuciosamente com detalhes e perspectivas estudadas, comparadas e analisadas com bases sustentadas e coerentes. Agora lhe pergunto: quais foram os escolhidos para o desenvolvimento do projeto? - pergunta Severo.

- Obviamente os cinco que tornaram seus projetos racionalmente justificados.

- Pois bem, embora tenham sido perspicazes e minuciosos, faltou um ingrediente importante: audácia. E não apenas isso. A empresa escolheu os que disseram muito sem dizer nada porque o grande diferencial dentre esses e os outros era a crença na certeza de suas convicções. O que venderam? Fantasia e ilusão. O mundo já está cheio de receitas óbvias, aquele que conseguir trabalhar o velho com os olhos do novo transformando ilusão em realidade é o Grande Vencedor. Todos tinham 50 % de acertar ou errar, a fórmula ninguém ainda possuía, só o caminho para ela. Não existem receitas prontas, apenas tentativas que dão certo. Respondi sua pergunta?


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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

A questão que se coloca...

Roteiro da apresentação do dia 22/11/2007 (quinta-feira). Curso de Extensão, Usp, Domenico Hur: ESQUIZOANÁLISE. Esse texto foi elaborado a partir do Texto: Pra Acabar com o Julgamento de Deus, de Artaud. A proposta era trabalhar a percepção do individuo através de imagens e sons (coerentes e incoerentes), propôr um encontro de rompimento eu-instituído.

TATI: (abre a porta da sala, entra e comunica) A questão que se coloca...
(do lado de fora, aumenta-se o tom de voz gradualmente)
VANY: A questão que se coloca...
RAPHA: A questão que se coloca...
CAROL: A questão que se coloca...
TATI: O que é grave é sabermos que atrás da ordem deste mundo existe uma outra.
VANY: é sabermos que atrás da ordem deste mundo existe uma outra.
(bate no ombro da Tati que cai - forma estilizada)
RAPHA: que atrás da ordem deste mundo existe uma outra.
(bate no ombro da Vany que cai)
CAROL: existe uma outra. (bate no ombro do Rapha que cai)
(Lembrando que a "caída" é sempre estilizada)
TATI: Que é noite,
VANY: Nada,
RAPHA: Irreflexão
CAROL: Meu corpo.
TODOS: Não sei. (pausa) Mas sei que...
TATI: O espaço,
VANY: O tempo,
RAPHA: A dimensão,
CAROL: O devir,
TATI: O futuro,
VANY: O destino,
RAPHA: O ser,
CAROL: O não-ser.
TODOS: O Eu. (pausa) Eu, indivíduo, indústria, instituição, eu integrada, eu desunido. PARTI.
(tambor - remanejar-se na sala)
TATI: Senhores, queiram colocar o cinto de segurança que a viagem vai começar e quem sai vivo só Deus irá julgar.
VANY: o cinto de segurança que a viagem vai começar e quem sai vivo só Deus irá julgar.
RAPHA: a viagem vai começar e quem sai vivo só Deus irá julgar.
CAROL: quem sai vivo só Deus irá julgar.
TATI: Virem suas respectivas cadeiras com o olhar direcionado para a parede.
VANY: suas respectivas cadeiras com o olhar direcionado para a parede.
RAPHA: com o olhar direcionado para a parede.
CAROL: para a parede.
TODOS: (como gagos) As ven das de vem ser co lo ca das nos o lhos. (como robôs) A luz está sendo apagada.
(mùsica - 30 segundos da mesma, tempo para acender as velas e os incensos e preparar-se para o contato sensorial com o público. Caos tribal. Água em burifador, pena, café, perfume, óleo... etc. Após esse contato, o espelho passará nas mãos de cada um. )
TATI: Parece dificil mas há uma forma de nos verem sem tirar os olhos da parede e este meio será passado de mão em mão.
VANY: Parece difícil.
RAPHA: Forma de nos verem.
CAROL: Passado de mão em mão.
(disco enferrujado, várias palavras faladas aleatoriamente - ombro no ombro - ad infinitum)
(Poesias - Papéis dobrados no meio da sala. Cada um será tirado para participar do grupo dos 4 até finalizar com todos indivíduos formando um único grupo.)

* O final foi bem interessante porque saiu totalmente do pré-estabelecido. O que era para provocar uma junção dentro do círculo não aconteceu. As pessoas como se obedecendo a uma ordem (não mencionada) pegavam seus poemas, liam e voltavam para sua respectiva cadeira.

Frases para conhecimento:
1. Michel Foucalt: A verdade nada mais é do que uma mentira que não pode ser contestada em um determinado momento.
2. Prazer em exercer um poder que questiona, fiscaliza, espreita, espia, investiga, apalpa, revela, prazer de escapar a esse poder. Poder que se deixa invadir pelo prazer que persegue - poder que se afirma no prazer de mostrar-se, de escandalizar, de resistir. Prazer e poder.
Um novo prazer surgiu: o de contar e o de ouvir. Dever de dizer tudo. Confessa! É obrigação a confissão.
3. Estimulação dos corpos, da intensificação dos prazeres, da incitação do discurso, da formação dos conhecimentos, do reforço dos controles e das resistências. Socialmente construída. Aceite a verdade que mais lhe convém ou invente novas verdades.
Participaram dessa apresentação:
Carol Vita, Tatiane Janke, Raphael Enrique e Vanessa Morelli.

INVENÇÃO DE BRUXA

Ritual das Mulheres, Autoria: Vanessa Morelli, Cena para Sarau.

Personagens: Anfitriã, Senhorita Ana, Senhorita Flávia, Senhorita Sara e Senhorita Luana.

(As 4 estão de sombrinhas. É noite. É uma comemoração.)

Senhora Ana: Quanta elegância! Parece que pensou em todos os detalhes.

Senhorita Flávia: Parece não. Pensou em todos os detalhes.

Senhorita Sara: Preocupou-se com o esmero.

Senhora Luana: Quanto requinte!

Senhorita Ana: Eu diria ainda mais: uma comemoração tão pormenorizada como essa é muito digna de nossa vinda.

Senhorita Flávia: Andei 46 km para chegar até aqui.

Senhorita Sara: Não é muito, da minha casa até esta comemoração digníssima são 88 km.

Senhorita Luana: Vieram como?

Senhorita Flávia: Vim de carro, meu motorista me deixou. Deve estar dormindo dentro do carro, pobre rapaz...

Senhorita Sara: Eu também vim de carro, dirigindo.

Senhorita Ana: Não sabia que dirigia.

Senhorita Sara: Faço de tudo, só não lavo e nem passo.

Senhorita Luana: Que lástima se o fizesse.

Senhorita Sara: Que nada! Tenho orgulho de minha independência.

Senhorita Ana: Meu marido me deixou. Virá me buscar dentro de uma hora. É um amor, sempre me agrada.

Senhorita Luana: Será incômodo se o seu marido me deixar em casa antes?

Senhorita Ana: E o seu marido, o Senhor Clóvis, não a buscará?

Senhorita Luana: Meu marido, aquele mal se preocupada comigo. Tive de vir a pé. Não sei dirigir. E ele nem se ofereceu. Deve estar dormindo no momento.

Senhorita Ana: Sendo assim, faremos de bom grado.

Senhorita Luana: Muito agradecida. Acaba de salvar meus pés!

Senhorita Ana: Confesso estar desapontada com o comportamento deselegante do Senhor Clóvis.

Senhorita Sara: Eu também!

Senhorita Flávia: Indignadíssima.

Senhorita Luana: É o martírio das mulheres casadas. (olha para a Senhorita Ana) Quer dizer, nem todas!

Senhorita Ana: Correção bem pontuada, eu diria.

Senhorita Flávia: Bem pontuada.

Senhorita Sara: Convém que sim.

Senhorita Ana: Meninas, desculpe a liberdade pelo “meninas”, mas me preocupa as senhoritas voltarem sozinhas para tão longe, ainda mais nesta escuridão que se faz presente.

Senhorita Flávia: Não precisa preocupar-se.

Senhorita Sara: Somos independentes.

Senhorita Ana: Sei bem disso, mas não me custa nada oferecer hospedagem pelo menos por esta noite.

Senhorita Flávia: Ah! Quanta educação!

Senhorita Sara: Quanta gentileza!

Senhorita Ana: Então... aceitam meu convite? Podem seguir nosso carro, assim não precisam voltar para pegá-los.

Senhorita Flávia: Bem pensado.

Senhorita Ana: Posso então fazer esse agrado?

Senhorita Flávia: Adoraria descansar antes de tomar estrada novamente.

Senhorita Sara: Só penso que se aceitar, estarei renegando minha independência. Não costumo aceitar gentilezas. Tenho minha independência!

Senhorita Ana: Por uma noite não lhe fará mal algum, Senhorita Sara.

Senhorita Sara: Já que não invadirei seu espaço e é tão gentil, não me custa aceitar.

Senhorita Ana: Adorarei passar mais algumas horas com as senhoritas.

Senhorita Luana: Mas que belíssima comemoração! Merecemos mais champagne, não é mesmo?

Senhorita Ana: O Ritual sagrado vai começar. Fechemos nossas sombrinhas. Precisamos estar livres de objetos nas mãos.

(fecham as sombrinhas e colocam no chão)

Anfitriã: Sejam bem vindas! O Ritual vai começar!

(As 4 se jogam no chão. A Anfitriã pisa em cima das 4 e continua pisando em outras, como se fossem muitas)

Anfitriã: Estamos aqui para nos redimir de nossos pecados. Estamos aqui para fazer desta noite um ato simbólico. Piso em vocês para que se lembrem que o caminho para a nossa trajetória é a humildade. (pausa) Levantem-se! Peguem suas espadas!

(As 4 se levantam e pegam as espadas que estão no fundo do palco)

Anfitriã: Levantem-na! Vamos começar o juramento. Eu, portadora da força terrestre (repetem), Prometo, Rei dos Céus, (repetem) que nada e ninguém (repetem) me fará falhar (repetem). Estou aqui para provar o voto de confiança que em Vós tenho (repetem). Ajoelhem-se! (as 4 ajoelham) Pausa para o festejo! Tragam as taças! (as 4 se levantam, trazem taças com vinho) Como prova de nossa gratidão, como prova da nossa solidariedade, como prova da nossa generosidade, sirvam-se! (as 4 vão até o público e entregam algumas taças. Apenas alguns receberão. Só as mulheres receberão as taças) Brindamos! (todas erguem as taças e bebem demoradamente, saboreando) Passemos para a quinta prova, a do reconhecimento. Cumprimentem-se e digam seus nomes!

Senhorita Ana: Ana. Prazer em conhecê-la, Flávia!

Senhorita Flávia: Flávia. Prazer em conhecê-la, Sara!

Senhorita Sara: Sara. Prazer em conhecê-la, Luana!

Senhorita Luana: Luana. Prazer em conhecê-la, Ana!

(Se conhecerem alguém da platéia do sexo feminino, cumprimentam também. Abraçam-se)

Anfitriã: O momento chegou. Vamos nos conhecer verdadeiramente. Agora só é possível comunicar-se através de poemas. A que sentir seu momento, comece. (todas se olham, silêncio, constrangimento. Finalmente uma começa, timidamente).

Senhorita Luana:
Julguei-me certa,
Prepotente,
Hoje, faço-me reta.
Ergo a lança até Vós!

Senhorita Ana:
Qual criatura há de se julgar errada?
Entre pétalas e espinhos, correta não digo.
Sigo, destemida, cheia de bravura,
Caminhando entre tropeços, reflito.
Quem sou eu, esta criatura?

Senhorita Flávia:
Frágil estrada da vida,
Linha do horizonte sem fim,
Gostaria de viver destemida.
Seria a sorte, enfim!

Senhorita Sara:
Independentes minhas palavras soam,
Acredito na liberdade promissora,
Quais vozes ecoam?
Sou apenas uma emissora!

(Todas acendem uma vela, levam para cima, começam a dançar. A Vela não pode apagar)

Anfitriã: Possuímos o dom da sabedoria, a voz da vida. É através dessa luz erguida que conseguimos o caminho da iluminação. Chegamos ao topo da nossa comunicação com o poder divino. Agora estão todas preparadas para dar a Luz e receber a Luz do dia e da noite. O universo é energia, emana energia. Toda ação tem sua reação. Façam o bem e receberão o bem. Boa noite!

CONVERSA DE TÁBUAS

Autoria: Vanessa Morelli

Ambiente esfumaçado, olhos irritados, sons dissipados. E uma mesa com três pessoas. Falam sobre o dia-a-dia de um artista. A conversa não muda, é sempre a mesma: inexpressiva, dissimulada, vazia. Falam sobre arte, personagens imaginários, construídos, inexistentes. Uma voz grita para ser ouvida, não se percebem, é mais uma voz no meio do ambiente.


Dores corroendo por dentro, reflexo de uma sociedade individualista. Um pensa no café e pão de amanhã, outro, no aluguel do próximo mês. E pedem por ajuda, clamam por socorro, ninguém ouve, a voz não atinge receptor algum.

Horas passam, bebidas invadem mesas, risos cínicos vitimizando aquele que a dor sente. Por todos os lados que os olhos vêem, o reflexo de uma única mesa. Todos irmãos, filhos do mesmo ancestral, seres iguais juram ser diferentes.

Conversa vai e vem, cíclica, sempre chegando ao ponto inicial. Um com medo da morte, outro, da velhice. Indiferente! Apenas seres com medos, doentes, fragilizados e expostos a falta de cura.

Um levanta a mão defendendo a tese do bom cidadão, vilão ou suicida. Outro orgulha-se levantando a bandeira do sonhador, crendo em amor incondicional. O terceiro põe a mão no peito elegendo o homem como ser ora masoquista, ora sadista. Teorias e mais teorias, apenas ditas, esquecidas, vencidas, sem experiência ou planos de vida.

O leva e traz da cerveja ou outros bebericos alcoólicos fica por conta do garçom-observador, satisfazendo o desejo temporário desses seres vazios que enchem e levantam taças acreditando subjetivamente estarem completos, preenchendo a vida de alguma coisa.

E o garçom-observador-espectador percebe alegremente que se encontra na ficção, muito longe da realidade...