quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

sábado, 5 de janeiro de 2008

Dramaturgia da Morelli (2007)

CULPADOS,
Drama em um ato, 1ª Peça de Vanessa Morelli

Mistura de dramas e risos. Presos ao passado, a si mesmo, a uma sociedade monogâmica que não aceita traição e poligamia. Prisioneiros por situações mal resolvidas, pela falta de amor, pelas relações que se perdem entre justificativas e falta de iniciativas. A única maneira de conquistarem a liberdade é tomar ciência e controle de suas vidas.

Sinopse: Dois casais encontram-se num bar. O que era para ser um encontro feliz transforma-se num retorno ao passado cheio de culpa, traição e raiva. Todos são culpados, prisioneiros de memórias do passado, buscarão uma maneira de serem livres.

Personagens: Bianca, Aila, Lucas e Rogério.

Breve trecho do começo da peça:

(Os personagens estão vestidos de prisioneiros, simbolizando o estar preso no passado e em situações mal resolvidas. O espaço cênico é limpo, somente uma cama de casal – caixa de madeira em forma retangular - no fundo, com um lençol vermelho e em cima uma rosa branca, o meio do palco ocupado por duas mesas, uma do lado esquerdo e outra do lado direito com duas cadeiras em cada uma. Mesa 1 das mulheres, à direita. Mesa 2 dos homens, à esquerda. As mesas são brancas, as cadeiras são pretas. Há um tapete branco e preto, como um tabuleiro de xadrez que dará a noção de que os personagens são peças movidas por uma força maior. Todo o palco em escuridão absoluta, iluminando apenas a Imagem congelada. Aila e Bianca sentadas na cama. Rogério e Lucas em pé, atrás de Bianca está Rogério e atrás de Aila, Lucas)

BIANCA (OFF) - O brilho das estrelas não ofusca o brilho da lua, redonda, imperiosa, majestosa, ela é só ela, única! Porém existe o sol, mas é preciso desaparecer um para dar espaço ao outro. Um precisa ceder. É necessário desaparecer, mesmo que por um dia e mesmo assim existe lua, existe sol. Um sabe do outro, mas não se conhecem e nunca pediram para se conhecer. E existe ar, existe oxigênio. E existe água, mas é necessário hidrogênio, dois hidrogênios para estar ao lado do oxigênio. E três se unem, não são dois, nem quatro. São três. Três é sempre bom, nunca é demais, dois talvez sejam dois por serem demais e um é pouco, sempre é pouco, mas ao lado de dois oxigênios é sempre bom. E existe a água, os três necessários. E há relação, a três, mas há uma e somente uma relação. E a terra é seca, úmida e nunca deixa de ser terra. Pode ser lama. Algumas lamas fazem bem a pele. Contato de peles, e se esquentam e se arrepiam e pedem abrigo e sentem carinho porque há calor e aquece, aquece e pega fogo, que queima, arde e alimenta, mas é necessário respirar e existe oxigênio, oxigênio que se une a dois hidrogênios, mas é necessário oxigênio, é necessário respirar, Ó DOIS!

(a imagem ganha movimento)


AILA - Que seja feita a sua vontade! (elas se beijam, num selinho angelical e casto)

AILA: (para Rogério) O que sou, amor? O que sou? O amor é um mal, um jogo ímpio.

BIANCA: Sagrado, um jogo sagrado, uma possessão divina pela qual nos elevamos acima de nós mesmos.

LUCAS: Quantos não falaram de amor? Desde Platão, Alexandre Dumas até Mário Bortolotto. Ora, a frágil alma humana procura a soberana beleza contemplada em encarnações anteriores. Esse é o seu ideal, é pelo Amor que a fragilzinha alma humana encontra seu caminho na procura pelo saber, em busca do amor platônico. O amor é o caminho para a libertação.

ROGÈRIO: Temos uma escada a percorrer. Primeiro degrau: amor físico. Preparados?

BIANCA: Concluído.

AILA: Assinalado.

LUCAS: Em dia.

ROGÉRIO: Temos de ir para o segundo degrau, portanto nada de desvios de meta, nada de loucura, nada de transgressão ao próprio corpo. Seguiremos adiante em busca de nossa prioridade: segundo degrau. Estejamos atentos o máximo possível.

(Presente:Os personagens estão num bar, bebendo e conversando informalmente)

AILA: Não sei se começo pelo fim, pelo meio ou se começo pelo começo. Mas onde é exatamente o começo? O começo está ligado ao nascimento, mas nascer implica um ato de morrer. Renascemos de nossas mortes. Acho que morremos todas as noites em nossos sonhos e fazemos do dia um recomeço. Estamos num bar, este espaço preenchido com duas cadeiras do lado direito e duas cadeiras do lado esquerdo. Do lado direito, a mesa das mulheres e do lado esquerdo, a mesa dos homens. Eu sou Aila.

BIANCA: Eu sou Bianca.

AILA: Somos duas amigas que não se vêem há cinco anos.

BIANCA: Cinco longos anos...

(...)

MARGARIDAS,
Comédia negra em um ato, 2ª Peça de Vanessa Morelli

Personagens: Clara, Poliana, Abigail, Velhinha e ELE.

Breve trecho do começo da peça:

(O telefone toca. Poliana atende. Fica muda e desliga)


CLARA: (na cama) Sinto cheiro de flores por todos os lados, por onde quer que eu vá sinto cheiro de flores. (pausa) Era uma manhã, o sol ainda não tinha se posto e eu caminhava tranqüilamente. Lembro de ter visto duas aves que voavam ao longe e o cheiro e o cheiro de flores. Ele era bonito, estava vestido de branco e veio em minha direção. Podia ser confundido com Eros, tamanha beleza. Quando percebi, estava sonhando.
(...)


MARIPOSAS PERDIDAS – um mergulho dentro da mesma alma
,
Drama em um ato, 3ª Peça de Vanessa Morelli


As mariposas dominam as noites e são atraídas pela luz. Mariposas perdidas é justamente a procura incansável por esta luz, o não encontro, o estar perdido (a). Uma mulher em busca de algo, ao encontro de si mesma (a luz, um futuro, um amor, um ideal) e um homem bem racional que é uma projeção dela mesma (é uma conversa com seu lado interior, decidida, com luz própria). O que ele quer? Ele a quer, a deseja, a ama, é o amor-próprio. O que ela quer? Não sabe, desconhece.

Sinopse: Uma poetisa num momento de crise se fecha em seu mundo para poder se achar. Perdida, procura uma luz criadora, uma luz que norteará seu caminho ao encontro do amor por si mesma que se encontra ausente, mas pra isso precisa primeiro se libertar.

Personagens: José Carlos, Maria Hellena, Menina, Justiça, Defesa e Acusação.

Breve trecho do começo da peça:

(Palco em total escuridão, neste momento o espaço é um grande vazio. Lanternas aparecem de todos os lados, buscando algo, procuram, nada encontram. Tempo. As lanternas apagam, breu total. Tempo. À direita luz na JUSTIÇA que está num degrau mais elevado que as demais – Acusação e Defesa. Sempre as três forças do julgamento estão juntas.)


JUSTIÇA: Vamos começar a sessão. Por favor, sentem-se e desliguem bips, celulares e seus diversos aparelhos eletrônicos. (ameaça) Eu juro que coloco nas grades o filho da puta que me interromper. (retoma calmamente) É terminantemente proibido ingerir alimentos dentro desse espaço. Havendo necessidade de saciar qualquer tipo de vontade, peço que se encaminhem para o hall. Silêncio! A sessão dará início. (bate com o martelo)

(ELA deitada no centro do palco, como se estivesse morta. Foco de luz no centro. ELE se aproxima e a contempla, está atrás dela, como uma sombra. A campainha toca. ELA permanece imóvel. Apaga foco neles e acende novamente na JUSTIÇA.)

JUSTIÇA: A ré é acusada de cometer crime hediondo contra a própria vida, negando-lhe a liberdade, direito adquirido do cidadão e direito humano existencial básico. O julgamento vai começar. Peço a Acusação que inicie seu discurso.

(...)


Agradeço ao Teatro Kaus Cia Experimental pela oportunidade de participar do Ciclo de Dramaturgia Latina e dos Cursos com Santiago Serrano e Edílio Peña e ao Frederico Barbosa, Donny Correa, Marina Bedran e Gabriel Navarro.
A todos, coloco-me à disposição para enviar as peças integralmente. Margaridas já foi lida na Casa do Saber e na 3ª Virada Cultural da Casa das Rosas (Atores: Débora Aoni, Fernanda Sophia, Vanessa Morelli, Vera Monteiro e Will Prado) e Mariposas Perdidas, na Casa do Saber (Atores: Camila Rondon, Débora Aoni, Fernão Lacerda, Igor Kovalevski, Luiza Albuquerque e Samya Enes). As três peças se encontram devidamente registradas na Biblioteca Nacional.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

sábado, 29 de dezembro de 2007

Amanhã / Futuro

Imagine tocar o impensado,
um tempo não cronometrado,
um estado desafetado,
um espaço inexistente.

Mistura de ingredientes sem sentido,
Complete com desatino,
Some o inacabado
E finalize incoerente.

Imagine ressucitar Leary,
Discutir assuntos com Einstein,
Puxar a cadeira do Coelho
E falar cara-cara com Assis.

Dessas impossibilidades raras,
Surge uma Terra inabitada,
Não há forma organizada.
Afaste-se, Vivência Ausente!


By Morelli ®


Creative Commons License


Esta obra está licenciada sob uma
Licença Creative Commons.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

CARTAS PARA O AMANHÃ

Carta-resposta escrita por Vanessa Morelli dia 24/12/2007 (Cartas para o Amanhã... n° 02):


Caríssima amiga, companheira de sonhos e ilusões e tão distante em matéria, Faz algum tempo que não me coloco a escrever uma carta - objeto tão pessoal - e articular idéias que inevitavelmente guiaram-me ao conhecimento de mim mesma parece constrangedor, creio que a sensação é a mesma de um pudor frente a descoberta, afinal mudamos todos os dias, entretanto reconhecer-nos não é tarefa fácil.

Encontro-me num belo dia - adoro o sol. Esse calor aquece não meu corpo, mas minha alma, e mesmo tendo seu tempo de ação (a noite chegará), deixo-me ser acariciada por essa paisagem de cores quentes e alegres. Tudo é tão cronometrado, calculado, muitas vezes a precisão é algo certeiro, poderia muito bem viver somente com a luz do sol a corar minhas faces e agradeceria feliz todos os dias a Deus. Ele não me ouve, não costuma me presentear com meus desejos. Sei que me testa o tempo inteiro procurando meus pontos fracos e tentando fazer de mim alguém mais forte, apenas me convenço de que ele deve querer meu melhor, dessa maneira não provoca minha ira e nem tira de mim minhas alucinações, visões, delírios e artifícios.

No auge da neutralidade meus pensamentos vagueiam hoje, como se fosse impossível sonhar com um outro mundo além desse. Será? Sou uma criatura contraditória, aleatória, tão confusa em idéias e ações. Quisera eu ter atitudes constantes e me perceber mais estável, pois não? Impossível! Eu tento, confesso que tento, porém, teimosa como sou, luto patinando em manteiga, eternamente a escorregar, entretanto sempre caindo na direção certa e escapando na intuição. A vida é assim... um pedaço do não explicado, misteriosa e ambiciosa, sempre a dar novos frutos e mais frutos.

Questionamentos a parte, é quase natal, quase ceia, quase união. Faltam horas! Pessoas apressadas a comprar peru, chester ou tender; cereja, figo, melancia ou outras frutas; castanhas, avelãs, pistaches, amêndoas, nozes, ou outras similares. Presentes! Vários! Pra família inteira, pros amigos, conhecidos, pros animais de estimação, a vontade de dar e receber transparece em todos os olhares deixando aquele resquício de carência e ternura. Todos vulneráveis e implorando inconscientemente por afeto. Sou uma dessas pessoas, rezando pra ser uma boa lembrança entre os conhecidos pra que assim tenha momentos especiais típicos do natal: cartões, telefonemas, recados e presentes. Dádiva! Dom! Oferenda, uma simples oferta e mais nada.

Concluindo, o mais próximo do amanhã que consigo chegar são algumas horas, me parece elegante de minha parte então finalizar esta mensagem com o que é admitido pelo uso: Feliz natal, minha querida! Ass. Morelli.


Carta-desafio-resposta escrita por Lunna Guedes dia 24/12/2007 (Cartas para o Amanhã... n° 02):

Escrevo-te a bordo de uma tarde de sol, onde pequenos maços de algodão se exibem junto a paisagem. Alguns chamam de nuvens, outros de cirrus... Eu fico com os maços de algodão mesmo.

Trago em mim a alegria de saber que essas palavras chegaram até seus olhos, mais cedo ou mais tarde. Não importa! Sei que em algum momento seus olhos identificarão essas palavras e saberão do meu silencio do lado de cá junto a jabuticabeira que já se mostra ausente de frutos...

A paisagem se mostra calma, ouço vozes ao longe, as festividades nos vizinhos começaram mais cedo. Eu sigo ausente das comemorações. Sigo com meu silencio brincalhão saltando junto aos pássaros que estão alegres e cantam em seus saltos de galhos em galhos. Eu vou com eles...

Daqui a pouco serão três horas desse dia sem data (não sigo o calendário) não acompanho os ponteiros, mas sei que daqui a pouco será três horas. Como sei? Sinto fome, aquela fome de palavras saltando aos olhos como os pássaros o fazem nos galhos lá fora...

Propus a construção dessa carta e de muitas outras na tarde de hoje porque queria falar a você da forma de inteligência que o ser humano encarnou nos dias atuais. Tudo me parece tão pobre e pequeno, que fico ansiosa para que o hoje se torne ontem e não mais volte...

Então, espero pelo amanhã, aquele que nunca vem bater na minha janela... Mas eu espero, uma hora o alcanço, só espero que a morte não chegue a mim primeiro. Então, enquanto espero, observo os homens que passam por minha janela. Você passou mais cedo e trouxe uma forma diferente de surpresa. Me levou com você para uma mesa de café na tarde de chuva. E como chovia! E como falávamos de nós e de outros e até um outro ousou se apresentar a nós.

Hoje não vivo saudades. Hoje estou em mim, aqui, sentada. Quieta... Num silencio que só mesmo os pássaros hão de compreender e você que instiga o meu pensamento deve estar a emitir suas gargalhadas sonoras ao pensar neste silêncio que é comum a mim quando minha mente delira de fronte a tela... Deve pensar no que escrever ao imaginar-me assim em silêncio. Este silencio que você desconhece em mim...

Andamos ausentes de nós... Voltei de viagem e no entanto, parece que estou ainda do outro lado do oceano no que se refere a você. Falta-nos vestir um abraço e pensar bobagens enquanto você fuma e eu bebo meu capuccino na Livraria da Vila. Sempre nos permitimos falar o hoje e nunca brindamos o amanhã. Esse parece um cenário de uma peça que você ainda vai escrever, mas não quer pensar sobre hoje...

E eu venho serenar seus nervos e para tal escrevo pensando uma folha de fundo azul, com nuvens e maços de algodão. Venho tecendo a infância, num percurso de trem com um maquinário movido a carvão. Venho pensando no sonhos que nos abraçarão e o que diremos nós desta que somos hoje. Falar do amanhã nunca será para nós porque sempre preferimos o passado, esse mestre que nos revela a saudade daquilo que fizemos porque lá estão as concretizações. Sei que você se lembra de pelo menos meia dúzia delas... E já começo a crer que talvez seja mais fácil no encontrarmos no ontem que neste tal amanhã...

Venho lhe beijar as mãos em forma de verso, onde rascunho um pensamento e deixo transparecer minha gratidão pelo que veio de ti até então e quem sabe juntas possamos esperar pelo amanhã... Aquele que há de vir e juntar-se a nós para enfim espiarmos o que fizemos ou deixamos de fazer. Viu para que serve o amanhã? Abraços meus, Lunna Guedes.